O SEGREDO DE BARTHOLOMEU GONÇALVES (1580-1630)

by Rubens Camara

Bartholomeu Gonçalves foi um homem misterioso. Viveu na freguesia da Sé na Cidade do Porto, Portugal, entre 1580 e 1630. Em razão de sua localização tão distante no tempo, não se sabe muito sobre ele. Era tecelão de profissão, conforme se verifica no assento de seu falecimento:

"Aos 10 dias de junho de 1630, faleceu Bar.Gls., tecelão, morava na Caserna da Villa, fez testamento, mandou inteirar na sua deixa por herdeira sua mulher Ma. Gls."

A partir de alguns assentos católicos, consegue-se alinhavar o mistério que o envolveu. Nos livros de registros de batismos da Freguesia da Sé, Porto, identificam-se alguns filhos de Bartholomeu Gonçalves, sendo que em alguns desses assentos o nome da mãe da criança não é mencionado. Bastante curiosa essa situação, tendo em vista que era comum, no caso de filhos naturais, que se omitisse o nome do pai, não o da mãe. Há assentos em que se menciona o nome da esposa de Bartholomeu, não restando dúvida de que se tratasse de batismos de filhos legítimos do casal. Mas um terceiro tipo de registro deixa bem patente o tal mistério. Trata-se de um assento de batismo de uma criança, por nome Manoel, que Bartholomeu Gonçalves e sua mulher Maria Gonçalves fizeram questão de que constasse no registro que “era filha de pessoas perigosas”:

“Em vinte e três de outubro de 1623, me trouxe Maria Gonçalves, mulher de Bartolomeu Gonçalves, de Vilar, a um menino dizendo que a criança era filha de pessoas perigosas que o batizasse e o batizei pondo-lhe o nome de Manoel, confirmado pelas pessoas que o trouxeram que não fora ele batizado, portanto o batizei e foram padrinhos Manoel Gonçalves, sacristão, e a mesma ama Maria Gonçalves”.

Intrigante! Quem seriam essas “pessoas perigosas”? Corria o ano de 1623, e, dada as circunstâncias religiosas da época, é razoável crer que as tais “pessoas perigosas” fossem gente perseguida ou processada pela inquisição por blasfêmia, feitiçaria, sodomia, judaísmo, etc. Mas que autoridade, ou interesses, tinha Bartholomeu para proteger essas pessoas? Seriam parentes? E essas “pessoas perigosas” tinham mesmo tanta confiança em Bartholomeu?

Um outro registro da mesma natureza, mais antigo, contém detalhes que acrescentam algumas luzes ao caso:

“Em vinte e cinco de outubro de 1587 anos, batizei a um menino e puseram nome de Flamínio e não lhe nomearam pai nem mãe, por dizerem ser coisa secreta e era estrangeiro e por não saberem de mais o deram para fazer cristão. Foram compadres Pedro Gonçalves, mareante, e Isabel Gonçalves, mulher de Francisco Fernandes, pescador, moradores nesta freguesia, parteira Isabel Jorge”.

Por esse registro combinado com outro de 1591 que vai abaixo transcrito, pode-se, com quase total certeza, concluir-se que tanto essa criança quanto aquela dada a batizar pela mulher de Bartholomeu Gonçalves eram judias:

“Em sete dias do mês de novembro de 1591 anos, batizei a Francisco filho de Francisco Fernandes, tanoeiro, e Isabel Gonçalves, sua mulher, foram compradres o licenciado Luis Gomes de Leão (cristão-novo) e comadre Maria André mulher de Manoel Luis, barbeiro, Isabel Jorge [parteira]”.

Observe-se que o padrinho nesse batismo foi um cristão-novo, Luis Gomes de Leão. Os pais da criança nesse registro, Francisco Fernandes, tanoeiro, e Isabel Gonçalves, podem ser os mesmos que aparecem naquele outro registro, no qual foi madrinha Isabel Gonçalves, mulher de Francisco Fernandes, pescador. Não bastasse isso, tanto num registro, como noutro, a parteira é a mesma, Isabel Jorge. Fica claro, então, que, embora as pessoas envolvidas declarassem “não saberem de mais”, com certeza sabiam a origem de tal criança e a razão do segredo. Isabel Jorge, a parteira, certamente não estava alheia aos fatos. Em 1592, ela aparece envolvida novamente com cristãos-novos num batismo de uma filha de Francisco Fernandes:

“Em os 4 de dezembro de 1592 anos, batizei a Andreza filha de Francisco Fernandes e de uma sobrinha sua mulher. Foram compadres Pedro ...... [sobrenome ilegível] e Antônia do Grão, ambos moradores na cidade, cristãos-novos, parteira Isabel Jorge”.

Todos esses fatos permitem teorizar que Bartolomeu Gonçalves e sua mulher Maria Gonçalves eram de origem judia e que davam proteção a pessoas de mesma progênie em apuros com o Santo Ofício. Uma neta deles, Páschoa Luis, viria a se casar com Domingos de Leão, também de origem cristã-nova. No assento de casamento, consta que eram parentes:

"Domingos de Leão e Páschoa Luis, ele filho de Antônio de Leão e de sua mulher Maria Alves, defuntos, moradores na cidade do Porto, rua das Congostas e ela filha de Bartholomeu Gonçalves, defunto, e de sua mulher Anna Luis, desta freguesia, dispensados em parentesco de afinidade em 4º grau. Feitas todas diligências sem impendimento, se receberam nesta Igreja com minha presença e testemunhas Capitão João Aranha Coutinho, o reverendo Paulo Vieira Aranha, Paulo Vieira Sobrinho, moradores na Freguesia de Bomjoin, todos desta freguesia, die 7 de dezembro de 1679".

Sem mais elementos, o segredo permanece guardado na densa noite de mais de três séculos...



Fuentes: https://web.archive.org/web/20091026191854/http://geocities.com/Heartland/1074/ 
               https://web.archive.org/web/20100707013216/http://www.saudades.org/Osegredo.htm
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